O Dogma e o Ateísmo

16 Dezembro 2008

Calma, não tem nada a ver com religião. Achei o título apropriado para fazer uma analogia interessante – de pessoas que acreditam que a aplicação de metodologias, modelos, padronizações, e boas práticas é o caminho para o sucesso(o dogmático) e outras que não enxergam nenhum valor prático nisso e que essas coisas só atrapalham seu trabalho(o ateu).

Vamos começar falando sobre o “Ateu”. Ele é presente em todas as estruturas da empresa. É uma pessoa prática e ligada diretamente no resultado do SEU trabalho ou no trabalho de seus companheiros diretos ou sua equipe direta.

Antes de mais nada,  e antes de ser descrente, o “ateu” acredita que não acredita em nada, e isso é muito significativo. Isso não significa que os “ateus” são pessoas fechadas a novidades ou inovações na sua forma de trabalho ou mesmo a instrumentos corporativos, o que acontece é que em geral eles eles gastam muita da sua energia para combater ou resistir ao que eles acham pouco produtivo ou errado. E são pouco flexíveis quanto ao que eles acreditam. Não os leve a mal, se você pensar bem, isso tudo muito coerente não é mesmo?

Em outras palavras se você não conseguir explicar no papel como a ITIL, o COBIT, a ISOxxxx, as leis de trânsito ou qualquer conjunto de regras seja diretamente proveitoso ao seu trabalho direto(agregando algum valor) você terá resistência certa. Isso é especialmente difícil, pois esse tipo de profissional é extremamente competente e sempre se assegura que faz seu trabalho da melhor forma. Aqui está o grande desafio dos “middle managers” que tem o papel de não permitir que idéias diferentes da organização se disseminem*(e inclusive consequentemente que todos pensem uniformemente com as diretivas da empresa).

Em contra-partida, o “Dogmático” acredita que o único caminho para redenção é a aplicação de metodologias e boas práticas. Ele estuda isso, tira suas certificações, procura cases de sucesso, veste a camisa mesmo, até briga com quem fala que não funciona. (Mas uma vez, aqui existe um ponto de coerência. Aceitar que estas coisas como algo não-funcional significa que você jogou tempo e dinheiro no lixo e ninguém quer isso não é?)

O “Dogmático” enxerga valor nas boas práticas e em geral é bem relacionado na estrutura funcional da empresa. (Afinal de contas se ele não for, ele passa de chato para maluco!) Não obstante, em geral consegue algum apoio gerencial para a aplicação das metodologias – afinal de contas são boas práticas do mercado, ora bolas!

Existem alguns “pecados” que alguns “dogmáticos ” realizam com freqüência. O principal deles é deixar de lado o fator cultural da empresa, e tentar aplicar melhores práticas que as vezes não são aplicáveis, necessárias, ou que existe a necessidade de um fator intermediário para ser alcançado antes de sua aplicação plena. Infelizmente isso é bem freqüente e tem sido o motivo de alguns “rollbacks” na implementações de boas práticas nas empresas. O fator humano é um deles. Em algumas empresas públicas ou com o “espírito de empresas públicas”, muitas vezes é difícil mudar hábitos, e isso deve ser respeitado e levado em conta nos planejamentos, ou então, como diz nosso amigo Silvio Luiz, é “fechar o caixão e beijar a víuva” para seu projeto de implementação.

Então qual o melhor perfil? A resposta é muito simples, como tudo na vida os extremos em geral são prejudiciais, dessa forma uma atitude equilibrada e adaptável é a melhor opção.

Como gestor, é importante enxergar o valor das boas práticas e apoiá-las. Ao mesmo tempo, é importante assegurar sua aplicabilidade. Muitas das metodologias são genéricas(alguns devem ser utilizadas como “frameworks”) e precisam ser customizadas para sua realidade. NEM TUDO PRECISA SER APLICADO no primeiro momento e E NEM TUDO É APLICÁVEL. Em alguns lugares um nível intermediário de maturidade é necessário para usufruir os resultados desejados. E certamente em alguns lugares não vale apena sua aplicação (pelo menos plena), em especial quando regras duras e inflexíveis prejudiquem a produtividade de seus funcionários.

Resumindo, proteja a produtividade de seus funcionários mas procure mostrá-los o valor de algumas regras e controles.

Bons Projetos e Sucesso.

Leandro Santoro.

*A atribuição do papel dos “middle managers” é de autoria de Eric Raymond, numa palestra que ele realizou no FISL 6.

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3 Comments Add your own

  • 1. Yves Junqueira  |  18 Dezembro 2008 at 1:44 am

    Bacaníssimo.

    Eu costumava ser meio “Ateu” mas fui amaciando aos poucos e começando a “ter fé” – em parte por sua influência no MDS.

    Não quero bagunçar sua analogia, mas acho que essa mesma classificação também pode servir forma pra empresa como um todo.

    Há muitas empresas muito boas por aí que são completamente Atéias. A empresa que trabalho atualmente é bem grande mas surpreendentemente é muito informal em seus processos. Lá não se ouve falar de ITIL, COBiT e nada disso.

    Eu gostava da sopa de letrinhas, mas não ando precisando delas. Aprendi nessa empresa que é possível tocar uma organização voltada a resultados, e sem vinculo com as Igreajs :-) . É claro, YMMV.

    Responder
    • 2. lsantoro  |  18 Dezembro 2008 at 9:06 am

      Olá Yves,
      obrigado pelo comentário. Fique tranqüilo que você não “esculhambou” nada não. Muito pelo contrário, seu comentário enriquece o assunto.
      Acredito que você está certo, isso pode se aplicar a empresas também. E fico satisfeito de ver um case de uma empresa que tem sido bem sucedida sem ter que se preocupara com as “sopas de letrinhas”.
      Particularmente eu tenho um interesse especial nas suas opiniões, pois temos formações bem diferentes, o que tem me ajudado a repensar algumas coisas.
      Sucesso em Zurich meu amigo.

      Responder
  • 3. Sergio Terzella  |  19 Dezembro 2008 at 11:58 am

    Gostei muito deste seu artigo, muito sábio e crítico (no bom sentido).
    É muito bom saber que nós brasileiros não somos “macaquitos”, como nos chamam os argentinos. Com certa razão, porque muitos de nós não usamos a métodos, normas e boas práticas, com senso crítico, prudência e sabedoria. Por exemplo, o PMBOK não é uma metodologia ou modo pragmático de “tocar” projetos de pequeno e médio porte, mas muitos de nós forçamos a barra e tentamos implementá-lo assim mesmo, em sua plenitude, como vc comentou. Ele é muito importante, com uma enciclopédia muito especializada no assunto de PM, mas como o nome indica é um “body of knowledge” , isto é, um banco de conhecimento sobre um assunto.
    Então porque tanta “badalação” sobre o PMBOK, se também existe o PRINCE2 que é uma metodologia, no sentido estrito do termo, e mais fácil de usar para projeto de TIC. Também existe o SCRUM que tem seu méritos para os projetos de TIC.
    Lanço aqui um desafio! Por que não criamos a nossa metodologia, técnicas e boas práticas para PM, ITIL, COBIT e ISOxxxx, ainda melhores e mais brasileiras do que as estrangeiras, como foi feito com MPS.BR (para o CMM).
    Desculpe o desabafo, mas precisamos conquistar nossa independência tecnologica, gerencial e cultural! Yes, we can! Hehehehe..

    Responder

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